02/09/2017

De coração

Deixo meu coração no joelho ralado do menino travesso
que desobedece cai e machuca
na conversa boa que varou a noite
ficou na memória e não terminou
no momento errante de garrafa na mão e porre certo
da loucura desmedida sem nenhum propósito
no riso sacana de quem faz o que bem quer
com a falta de destino que mais tememos

deixo meu coração no andar sorrateiro dos cachorros de rua
em busca de mais uma sobra de comida
que contribua com a sua sobrevivência
no cheiro de terra molhada no verão
no sol chegando no começo do dia
na frustração obtusa da boca que não beija quando quer beijar
na mobília sem valor sentimental abandonada em qualquer esquina
no vento do fim da tarde que refresca o suor do corpo cansado
no passo cuidadoso da moça introvertida
na lembrança da família reunida no final de semana
no último abraço que pudemos dar
no filme bonito dos amantes doentes que morrem
trazendo a lembrança de que a gente morre
e o amor é agora

meu coração fica na fé de quem teima em acreditar
e no lamento desacreditado e sem fé

meu coração fica
ao passo que segue comigo
porque meu coração não é bobo
ele não parte
multiplica
para ser mais forte
mais completo
capaz de não vacilar diante de comedimentos parcos
leis de fronteiras e restrições astrais
pelo doce prazer de continuar sentindo

meu coração não é bobo
ele sabe o que faz.

15/08/2017

Portento diminuto

Vi uma joaninha depois de muito
muito tempo
não sei dizer se estava ocupado demais para vê-la
ou se ela simplesmente sumiu por conveniência
fato é que só depois de muito tempo
outra vez a vi
repleto de saudades
quis conversar
contei coisas
busquei lembranças
gastei gestos e expressões
depois senti-me tolo por fazê-lo
percebendo a joaninha calada e indiferente
acreditei por acreditar que saudade nela não se manifesta
porque não há espaço
porque toda ela é joaninha
e é preciso continuar assim
para retribuir o que a existência oferece-lhe
como forma de gratidão
vive morre e embeleza a vida
de quem não se basta
e carece de miudezas pra sobreviver
à constatação de não ter feito nenhuma falta

fomos embora
sem nenhum tamanho.

15/06/2017

Poema do poeta louco

Sou poeta louco
dos que sofrem em silêncio
por palavras indefesas
presas
entre parênteses
por regras e sinais

sinto o sufocamento
e a agonia da privação
da palavra
que por vírgulas
tropeça
protesto
torno-a livre
pro algo mais

livre
enfim palavra apenas
sem dores sem penas
sem planos astrais

agora
instrumento de linguagem
matéria bruta de pensamento
signo sem fronteira passivo de cognição

adentra no verso sem freio
faz-se palavra pro bem
e pra todo mal

pois no poema
é palavra sem prema
e ponto final.

06/05/2017

A eterna chama

O sentimento é centelha
no paiol do peito são
contagia e incendeia
sem pecado e sem perdão.

30/04/2017

Elegia a palo seco




O espaço-tempo é desrespeitado nessas horas em que as perdas provocam verdadeiros vazios

Belchior indo embora leva consigo um dos elos da palavra vulgar com o indizível
fica um silêncio amargurado
um remorso ininteligível
uma saudade de um tempo que subverteu a si mesmo
pra tornar-se de alguma forma eterno

- que sua memória mantenha-nos vivos -
desesperadamente eu grito em português
como quem já não sabe
se nesse mundo há silêncio
ou surdez

grito em português
para que o embrutecimento não nos reduza a pedra
a multidão de pedra onde não há mais canção

para que não sejamos ilhas sem voz
dentro de nós mesmos.

22/04/2017

Profecia de cunho cerrado

Ao cerrado será dado
o valor do grão de soja
e o barão que come e boja
verá pois alardeado

que o cerrado se elevado
a visitação antoja
e agirá com vil lamoja
ante a brecha de mercado

bendirá a quaresmeira
louvará lobo-guará
o tamanduá-bandeira

cervo anta anu preá
a aroeira-pimenteira
o pequi e o araçá

– e não haverá porteira
pro turista que virá.

01/01/2017

Ano acabado

Vade retro
ano maldito

vá para os quintos dos infernos
lazarento

vá para a puta que o pariu


vá tomar bem no meio do olho do seu cu

ano infeliz
ano incapaz
ano menor

seu peçonhento
parece não querer acabar

vá que já é hora de ir
seu ano merda

ano fedido
ano fodido
ano cagão

vá e leve o seu preconceito
seu ano covarde
ano sem esperança

você não entendeu nada
seu ano acéfalo

você foi burro demais
burro demais caralho

burro e arrombado
seu ano boçal
você foi o ano em que nada mudou
como sempre
como sempre

seu ano fi duma égua
ano canalha
ano rolha de poço
ano cínico
ano jeca
ano punheteiro
ano sem honra
ano Cunha
ano antiquado
ano babão

ano banana
ano babaca

estúpido vagabundo
hipócrita imbecil

ano caralho de asa
maçante
miserável
neurótico
otário
ranzinza
panaca
traíra
ultrapassado

ah seu desgraçado
você é igual a todos os anos
você vai
e eu fico aqui
quando era eu
que era pra ir

e me livrar de tudo isso
que eu me acostumei a ser
com o passar dos anos.